Gestão & Sustentabilidade #50: A conta do clima já chegou, ela só não veio com esse nome
A transição climática não aparece no seu resultado com esse nome, mas está diluída na energia, no seguro, no frete e no custo do capital, e quem não soma não controla a própria margem.

A linha que não existe no seu orçamento
Pergunte hoje ao seu controller quanto a empresa gastou com clima no ano passado. Ele vai abrir a planilha, rolar até o fim e dizer a verdade: não existe essa linha. Zero.
E ele estará certo. Não há, no plano de contas de praticamente nenhuma empresa brasileira, uma rubrica chamada clima. O que existe é energia elétrica, prêmio de seguro, frete, manutenção, perda de estoque, parada não programada, despesa financeira. O clima não emite nota fiscal, e por isso nunca aparece na contabilidade com o próprio nome. Ele chega disfarçado, diluído em rubricas que já estavam ali antes e que ninguém pensa em somar.
Defendo aqui uma ideia que talvez incomode: a transição climática deixou de ser uma discussão sobre o que sua empresa deveria fazer no futuro e virou a descrição do que ela já paga no presente. Há uma diferença enorme entre uma empresa que decide não agir e uma empresa que já paga sem saber que paga. A primeira fez uma escolha. A segunda perdeu o controle da própria margem sem perceber.
O que a conta de luz já revela
Não falo de projeção para 2050, mas de pesquisa publicada há poucos dias. A Sondagem Especial Indústria e Energia 2026, da Confederação Nacional da Indústria, ouviu quase mil e quinhentas empresas dos setores extrativo e de transformação. A energia elétrica é o principal insumo energético para 79% das indústrias brasileiras. Para 83% delas, esse custo é determinante para a competitividade. E 67% afirmam que a alta das tarifas atingiu diretamente os custos de produção.
Repare no que esses números descrevem. Não descrevem preocupação ambiental, descrevem pressão de margem. Nenhum daqueles empresários respondeu a um questionário sobre sustentabilidade. Responderam sobre custo, competitividade e capacidade de continuar vendendo pelo preço que o mercado aceita. O clima entrou na conversa pela porta dos fundos, vestido de tarifa.
A resposta mais comum foi migrar para o mercado livre, escolha de 30% das empresas. É um bom movimento, e eu o recomendaria a muitos clientes. Mas sejamos honestos quanto à sua natureza: migrar é arbitrar preço, não é reduzir exposição. Você troca o ambiente de contratação e melhora o custo. Não altera o fato de que sua operação depende de um sistema elétrico cuja hidrologia e cuja infraestrutura estão sendo redesenhadas por um clima diferente daquele para o qual esse sistema foi projetado. É a diferença entre negociar melhor o preço do guarda-chuva e olhar para o céu. As duas coisas são úteis, só uma delas é estratégia.
Quando o regulador recua, o risco fica
Em 29 de maio deste ano, a Comissão de Valores Mobiliários publicou a Resolução CVM 244 e revogou a obrigatoriedade de que companhias abertas divulgassem o relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima, exigência que valeria a partir dos exercícios iniciados em janeiro de 2026. O Brasil, que fora o primeiro país a tornar compulsórios os padrões IFRS S1 e S2, voltou ao regime voluntário.
Ouvi a mesma palavra em várias empresas desde junho: alívio. Compreendo o alívio operacional. Mas leia com cuidado o que a norma fez e o que não fez. Ela retirou a obrigação de produzir um documento. Não retirou um real da sua conta de energia, não reduziu o prêmio do seu seguro, não recuperou o estoque perdido na última enchente, não devolveu as horas de parada da sua planta no verão passado. Mexeu no dever de relatar, não na física do risco.
E guardou uma cláusula pouco comentada: a partir de janeiro de 2027, a companhia que optar por não arquivar o relatório deverá justificar essa escolha em comunicado ao mercado. O regulador saiu do “você precisa relatar” e entrou no “você precisa explicar”. Isso não é alívio, é deslocamento. O tema desce da controladoria e sobe para o conselho. Relatar é técnico e delegável. Explicar é de governança, e exige ter opinião formada sobre a própria exposição. Uma empresa contrata quem produza seu relatório. Nenhuma contrata quem tenha, em seu lugar, a convicção que o conselho precisa assinar.
O retrato global confirma o descompasso. O Global Risks Report 2026, do Fórum Econômico Mundial, mostrou os eventos climáticos extremos caindo da segunda para a quarta posição no horizonte de dois anos, com todos os riscos ambientais perdendo severidade em termos absolutos. No horizonte de dez anos, os três riscos mais severos continuam sendo ambientais. A atenção do mundo encolheu, a exposição não. Atenção é cíclica, obedece à manchete. Exposição é cumulativa, obedece à física, e a física não lê jornal. É nesse vão que se acumula o risco não precificado, que nunca é risco menor, apenas mais caro, porque será cobrado de uma vez, em um momento que você não escolheu.
Auditoria reversa, onde o clima já assina
Proponho inverter a pergunta. A usual é qual é a nossa pegada de carbono, e ela olha para fora. A que eu faria primeiro olha para dentro: em que linhas do nosso resultado e do nosso balanço o clima já aparece, e sob que nome.
Chamo isso de auditoria reversa, e ela começa sem consultoria. Olhe a energia, não só o valor mas a volatilidade dos últimos trinta e seis meses. Olhe o seguro, menos o prêmio e mais a franquia, as exclusões novas e o que a seguradora endureceu na última renovação, porque ela precificou o seu risco antes de você. Olhe quantas vezes a logística mudou de rota por evento climático. Olhe água, manutenção e paradas não programadas, separando falha de equipamento de condição ambiental. Olhe a volatilidade dos insumos, o custo de capital, os critérios novos dos seus bancos. E olhe o mapa, onde estão fisicamente seus ativos e os dos seus fornecedores críticos. Some. O número que aparecer é a sua conta climática do ano passado. Ela sempre existiu, faltava somar.
Feita a soma, vem a decisão de capital. O McKinsey Global Institute estima que o mundo gasta hoje cerca de 190 bilhões de dólares por ano em medidas comprovadas de proteção contra eventos extremos, que manter esse nível de proteção em um cenário de dois graus exigiria duas vezes e meia esse valor, e que os benefícios dessas medidas superam os custos em uma proporção de sete para um. Pare nesse número. Se um diretor entrasse na sua sala com um projeto de retorno de sete para um, você pediria mais duas reuniões ou aprovaria na hora?
O conselho, o tempo e a margem
Escrevi aqui que CAPEX não é custo, é convicção. Adaptação é o caso mais literal disso e o mais difícil de defender internamente, porque o custo é hoje e o benefício é uma perda que não aconteceu. Perda evitada não aparece em relatório nenhum, e ninguém ganha bônus por catástrofe que não veio. É por isso que projetos de resiliência perdem, ano após ano, na fila de alocação de capital: competem com investimentos que prometem receita e prometem apenas ausência de estrago. Corrigir esse viés é trabalho de CFO, não da área de sustentabilidade.
Se eu estivesse na sua próxima reunião de conselho, faria uma única pergunta: já que não vamos publicar o relatório, o que exatamente pretendemos explicar ao mercado em 2027. Ela transforma um alívio de cronograma em decisão consciente, e revela em poucos minutos se a empresa parou de reportar porque avaliou sua materialidade ou porque simplesmente pôde. Vale ainda manter a disciplina do IFRS S1 e S2 como instrumento interno, não pelo documento, mas pela infraestrutura de dado que ele obriga a construir. A companhia que só constrói dado quando o regulador exige está construindo dado para o regulador, não para si. No dia em que a exigência cai, descobre que nunca teve o instrumento, só teve a obrigação.
No fundo, é uma questão de horizonte. O CFO que administra apenas o trimestre sempre achará adaptação cara, porque o custo cabe no trimestre e o benefício não. O que se entende como guardião do tempo faz outra conta.
A conta chegou, falta somar
Uma empresa que não sabe onde paga pelo clima não controla a própria margem. Pode até ser lucrativa, e muitas são, mas por um resultado que depende de variáveis que ela não mapeou nem precificou. Isso não é performance, é sorte com aparência de gestão. E sorte, como venho insistindo desde a primeira edição desta coluna, não é projeto.
Nada do que escrevi aqui depende de você ter convicção ambiental. Não peço que salve o planeta, peço que não seja surpreendido pela própria conta. A sugestão prática é simples de enunciar e difícil de executar: crie a linha. Não como rubrica contábil, que a norma não permite, mas como visão gerencial que atravesse energia, seguro, logística, manutenção, insumo e capital, respondendo a uma pergunta a cada fechamento: quanto o clima nos custou neste trimestre, e a tendência é de alta ou de baixa.
No dia em que essa pergunta tiver um número, ainda que impreciso, o tema deixa de ser pauta de sustentabilidade e vira o que sempre foi, uma variável de competitividade.
A conta já chegou. Falta apenas alguém, na sua empresa, disposto a somar.
Alexandre de Salles
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Fontes
- Comissão de Valores Mobiliários, Resolução CVM 244, 2026.
- Confederação Nacional da Indústria, Sondagem Especial Indústria e Energia 2026, 2026.
- Fórum Econômico Mundial, Global Risks Report 2026, 2026.
- McKinsey Global Institute, Advancing Adaptation: Mapping Costs from Cooling to Coastal Defenses, 2025.