Decantando Ideias #44: O que continua de pé quando o nome sai da porta

Todo líder sonha em deixar marca, mas o legado mais honesto talvez seja aquele que dispensa a assinatura.

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Capa do episódio Decantando Ideias #44: O que continua de pé quando o nome sai da porta

A porta que se fecha devagar

Sirva-se de uma taça e repare no rótulo antes de beber. Quase sempre há ali um nome. O da casa, o da família, às vezes o do enólogo que assina o vinho. Hoje quero pensar no que acontece quando um desses nomes vai embora e a garrafa continua sendo aberta.

Toda presença, por mais inteira que seja, um dia termina. O líder sai, o fundador se afasta, o executivo que parecia insubstituível esvazia a gaveta e fecha a porta. E é nesse momento que começa o teste mais duro de uma liderança. Não o do brilho, que se mede enquanto estamos lá, mas o da permanência, que só se mede depois.

É uma pergunta que evitei durante anos. E que acabou me encontrando quando chegou a minha vez de sair.

Quando o enólogo vai embora

No mundo do vinho, poucos momentos são observados com tanta apreensão quanto a troca de enólogo numa casa renomada. Durante anos, aquela pessoa foi o rosto do vinho. E então ela vai embora, e todos perguntam: o vinho vai continuar o mesmo?

A resposta diz mais sobre a casa do que sobre quem saiu. Há vinícolas em que o vinho perde o rumo depois da troca, e a crítica passa a dizer que já não é o mesmo. Essas casas descobrem tarde que não tinham um estilo. Tinham uma pessoa. E há outras em que a troca quase não se percebe na taça. O caráter permanece porque o estilo morava no método, na equipe da adega que conhece cada barrica, nos critérios de colheita discutidos e registrados. O enólogo que saiu foi grande justamente porque construiu algo que não dependia dele.

Os melhores enólogos preparam a própria saída muito antes de ela acontecer. Deixam o assistente decidir alguns lotes, explicam por que fazem o que fazem, aceitam que um vinho saia um pouco diferente do que fariam, desde que continue fiel à casa.

As empresas vivem o mesmo drama, com menos poesia. Toda organização tem seus enólogos famosos: o fundador carismático, o diretor que resolve tudo, o executivo que carrega na cabeça o que deveria estar no processo. Enquanto eles estão, tudo parece funcionar.

Os apreciadores atentos gostam de fazer degustações verticais: várias safras do mesmo vinho, lado a lado, para ver o que muda e o que permanece. Eu gostaria que as empresas fizessem mais verticais de si mesmas, comparando com honestidade como decidiam antes e depois da saída de alguém importante. Muitas descobririam que confundiram talento individual com capacidade institucional.

A vaidade de fazer falta

Em 2023, depois de doze anos numa mesma empresa, boa parte deles à frente da área financeira, eu saí. Não vou julgar aqui o que veio depois, porque esse julgamento pertence a quem ficou. Mas quero compartilhar o que essa saída me obrigou a olhar em mim.

Quando se passa tanto tempo num lugar, a gente se confunde um pouco com ele. Os controles que ajudamos a desenhar, as pessoas que ajudamos a formar, os rituais de fechamento, tudo vai ganhando a nossa digital. E começamos a acreditar que aquilo só funciona porque estamos ali. Às vezes é verdade. Esse é justamente o problema.

Há um desejo pouco confessável em quem sai de um lugar onde foi importante: o desejo de fazer falta. De que um processo tropece e revele, por contraste, o quanto éramos necessários. É humano, e eu reconheço essa tentação. Mas quanto mais penso nela, mais a vejo como o avesso do legado. O líder que precisa fazer falta, no fundo, construiu para si, e não para a organização.

Olhando para trás, me pergunto quantas vezes fui o enólogo de assinatura sem perceber. Quantas decisões passavam por mim porque era mais rápido, e não porque era melhor. Quantas explicações guardei na cabeça em vez de transformá-las em método. Quantas pessoas eu poderia ter deixado errar um pouco mais, para que aprendessem a acertar sem mim.

Não é preciso esperar a saída definitiva para saber o que continua de pé. Basta observar as ausências menores. As férias de verdade, a semana de doença, o mês dedicado a outro projeto. Se tudo para e as pessoas esperam o retorno para agir, a organização está dando um recado. E a responsabilidade raramente é de quem ficou.

Nos conselhos, vejo esse dilema com frequência. Empresas que dependem de uma única figura parecem fortes, crescem, impressionam. Mas quando se pergunta o que acontece se essa pessoa sair amanhã, a sala fica em silêncio. E confiança não é plano de sucessão.

Se você saísse amanhã, o que sua organização perderia, a sua pessoa ou o seu método?

O estilo que mora na adega

Falar de legado costuma nos levar à marca pessoal, às homenagens, às placas na parede. Isso tem valor, mas não é legado. É memória. Legado é o que continua produzindo efeito mesmo quando ninguém mais lembra de onde veio.

Numa grande casa, o estilo não está no rótulo nem nos prêmios. Está nas escolhas que se repetem safra após safra, e numa equipe que entende o porquê delas e, por isso, sabe adaptá-las quando o clima muda. Nas organizações, isso tem nomes menos charmosos: governança, cultura, processo, sucessão. O que fica de pé é o que foi transformado em critério compartilhado. Tudo o que ficou só na cabeça do líder vai embora com ele.

E há uma camada mais sutil. O bom enólogo não quer que o sucessor faça exatamente o mesmo vinho. Quer que ele seja fiel à casa e, dentro dessa fidelidade, encontre a própria voz. Legado que exige imitação é só centralidade prolongada no tempo.

O que a garrafa ainda dirá sem nós

Enquanto a última gota escorre pela taça, penso nos vinhos de guarda que serão abertos daqui a muitos anos por pessoas que nunca saberão quem os fez. Isso não os torna menores. Um vinho que continua bom quando ninguém lembra do enólogo talvez seja a prova mais pura de que foi bem-feito.

O cargo é emprestado, a cadeira é temporária, o nome na porta é uma placa que um dia alguém desparafusa. O que permanece é o que conseguimos transformar em algo maior do que nós.

Quando o seu nome sair da porta, o vinho que você ajudou a fazer continuará reconhecível?

Alexandre de Salles