Gestão & Sustentabilidade #49: A empresa familiar no limite
O que parece tradição muitas vezes é apenas fragilidade que ainda não foi testada.

Há uma imagem que sempre me acompanhou ao olhar para uma empresa familiar de dentro do balanço. A empresa parecida com uma casa antiga, construída pela família cômodo por cômodo, sem planta, guiada pela urgência de morar e não pela disciplina de projetar. Funciona bem durante muito tempo, porque quem construiu conhece cada rachadura. O problema começa quando mais gente passa a morar nela, e ninguém além do construtor original sabe onde ficam os encanamentos. Hoje quero falar sobre esse momento, o do limite do improviso, e desfazer um mal-entendido que trava a profissionalização antes mesmo de ela começar: a crença de que profissionalizar é abrir mão da própria história.
Quando o improviso vira arquitetura invisível
Toda empresa familiar nasce de um gesto pessoal, e nos primeiros anos essa centralidade é virtude. Decisão rápida, lealdade profunda, sacrifício genuíno. Só que o tempo faz algo cruel com esse arranjo, ele não avisa quando o gesto pessoal, que era solução, virou gargalo. A decisão que só o fundador toma continua sendo tomada só por ele, mesmo quando a empresa já tem tamanho de organização. O acordo entre sócios continua verbal, mesmo quando o capital em jogo já exige contrato. Esse é o improviso do qual falo, uma arquitetura invisível que funciona enquanto a pessoa que a sustenta está presente e desaba silenciosamente quando ela falta, adoece ou envelhece.
A confusão entre personalismo e identidade
Existe um medo recorrente nas famílias empresárias, o de que profissionalizar signifique perder o controle, diluir a identidade, deixar a empresa parecer de qualquer um. Esse medo parte de uma confusão que precisa ser desfeita, a confusão entre personalismo e identidade. A identidade não está no fato de que as decisões passam por uma pessoa só, está nos valores que essa pessoa carrega, e isso pode sobreviver à profissionalização. O que precisa morrer é o improviso que a expõe ao acaso. Olhando com frieza de CFO, o personalismo não é proteção, é exposição, uma empresa que depende inteiramente de uma cabeça para decidir tudo está com todo o seu capital de reputação apostado nessa única cabeça.
Traduzir o que já existe
Profissionalizar não é importar um modelo estranho de fora, é traduzir para uma linguagem que sobrevive a qualquer pessoa aquilo que já funciona na cabeça de quem construiu. O primeiro passo é escrever o que só se falava, regras de entrada e saída de sócios, critérios de remuneração, papéis dentro da empresa. O segundo é separar papel de pessoa, quem é dono não é automaticamente quem deve dirigir. O terceiro é criar um espaço de decisão que não dependa de humor, memória ou disponibilidade de uma única pessoa, um conselho, ainda que pequeno, instalado antes da crise, não depois, porque sob pressão ele nasce fraco.
O fundador como arquiteto, não como pilar único
Aqui está a virada de mentalidade que mais insisto. O papel de maior valor que um fundador pode exercer não é sustentar tudo nas próprias costas, é desenhar uma estrutura que continue de pé quando ele sair da sala. O fundador que se orgulha de que nada anda sem ele está descrevendo uma falha de arquitetura, não uma virtude. O fundador que se orgulha de que a empresa segue mesmo quando ele viaja ou adoece está descrevendo o oposto, uma obra bem construída. Profissionalizar não é um ato de renúncia, é o ato mais generoso que um fundador pode praticar.
Uma casa com planta sobrevive a quem a construiu
A empresa familiar que profissionaliza não trai a própria origem, faz o que toda estrutura precisa fazer para atravessar o tempo, sair da dependência de uma pessoa e entrar na dependência de um sistema. É a diferença entre uma casa que só o construtor sabe habitar e uma casa com planta registrada, que qualquer família futura pode ocupar sem medo de mexer no fio errado. Perenidade não é acaso, é projeto, e poucas provas disso são tão claras quanto a empresa que decide, a tempo, transformar o talento de quem a fundou em regra que sobrevive à sua ausência.
Se você lidera, ou é sócio, ou herdeiro de uma empresa familiar, fica uma pergunta simples. Se a pessoa que hoje segura essa empresa sozinha precisasse se ausentar amanhã, sem aviso, por quanto tempo a estrutura aguentaria em pé. Se a resposta incomoda, essa é exatamente a razão pela qual profissionalizar não é romper com a origem. É a única forma de garantir que ela continue existindo depois que quem a criou não estiver mais lá para segurá-la.
Alexandre de Salles. Vamos construir negócios que perdurem.
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