Decantando Ideias #42: A fadiga de parecer

Há vinhos que ganham medalha e não terminam a garrafa. Sobre o cansaço de sustentar uma versão de si, e o preço de descobrir tarde demais o que havia por baixo do verniz.

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O vinho que ninguém termina

Sirva-se de uma taça. Hoje eu queria que fosse um vinho que você já teve em casa e não soube explicar por que sobrou.

Você conhece esse vinho. Garrafa pesada, rótulo denso, aquele peso de vidro que comunica importância antes que alguém prove o conteúdo. No nariz, baunilha, coco, torrefação. O primeiro gole confirma a promessa e a mesa faz aquele barulho discreto de aprovação. E então, sem que ninguém perceba o momento exato, a garrafa para de andar. A segunda taça pesa. A terceira ninguém pede. No dia seguinte você a encontra pela metade na bancada, naquela quantidade constrangedora que denuncia algo que ninguém verbalizou.

O vinho não estava ruim. Ele apenas cansava. Existe um nome técnico para isso: fadiga de paladar. É o que acontece quando um estímulo intenso se repete sem variação até que a boca desista de prestar atenção.

Eu penso nisso quando olho para certas empresas. E, para ser honesto, quando olho para certas fases minhas.

O verniz que se chama baunilha

Esse cansaço não é acidental. Ele é comprado.

A barrica nova de carvalho francês é um dos itens mais caros de uma vinícola. Ela não é recipiente, é ingrediente. Entrega aroma, textura, taninos que não vieram da uva, e principalmente aquela sensação imediata de sofisticação que a maioria das pessoas aprendeu a associar a vinho caro.

E aqui começa a parte interessante: em muitos casos, a madeira não está ali para revelar a uva, mas para cobrir o que a uva não conseguiu ser naquele ano. Uma safra fraca, uma fruta magra demais. Doze meses de carvalho novo resolvem a aparência do problema. O vinho sai encorpado, aromático, com uma personalidade emprestada que ninguém rastreia até o vinhedo. Ele deixa de ter origem e passa a ter acabamento.

Como CFO, aprendi a reconhecer essa linha no orçamento antes de reconhecê-la na taça. Já vi orçamentos em que a rubrica de aparência crescia enquanto a de substância encolhia. Não com esses nomes, claro. Ninguém escreve aparência em uma planilha. E foi isso que me impressionou quando comecei a prestar atenção: em nenhum momento existe uma decisão errada, existe uma sequência de decisões defensáveis que, somadas ao longo de três anos, produzem uma empresa que gasta mais para parecer do que para ser.

A madeira tem ainda uma característica cruel. Você pode reduzir a proporção na safra seguinte, mas não pode tirar o carvalho de um vinho que já passou doze meses dentro dele.

O vinho de concurso e o vinho de mesa

Existe uma expressão reveladora no meio do vinho: vinho de concurso.

Ela descreve o vinho construído para um contexto muito específico. Um júri prova oitenta amostras em uma manhã, cada uma com quarenta segundos de atenção. Nesse ambiente, o que vence não é o vinho mais equilibrado, é o mais imediato. Aquele que grita primeiro. Ele ganha medalha, e quase nunca é o vinho que você quer no meio de uma quarta-feira difícil.

O mercado corporativo criou seus próprios concursos, e nós passamos a treinar as empresas para vencê-los. Já participei de mais reuniões de preparação de reunião do que gostaria de admitir. Ensaio de apresentação de resultado, alinhamento prévio ao alinhamento, revisão da narrativa antes do conselho. Cada etapa nasceu de uma preocupação legítima, e o efeito acumulado foi outro: em algum momento a organização passou a produzir dois artefatos distintos, o que ela é e o que ela apresenta ser, e o segundo passou a consumir mais energia da liderança do que o primeiro.

A pergunta que eu deveria ter feito antes é desconfortável de tão simples: quantas horas da nossa semana estão indo para a operação, e quantas para a representação da operação?

Não é hipocrisia, e é isso que torna o fenômeno difícil de tratar. Hipocrisia é escolha, e escolhas podem ser confrontadas. A fadiga de parecer não é escolhida, é sedimentada. Você apenas responde, todo trimestre, a um incentivo que recompensa o brilho mais rápido do que recompensa a permanência, e um dia percebe que já não sabe separar o que faz por convicção do que faz por sinalização.

Há um custo humano nisso que não aparece em relatório algum. Já vi executivos competentes chegarem esgotados a um jantar não pelo trabalho, mas pela encenação do trabalho. A pessoa está ali, com a taça na mão, e continua no palco. O cansaço que ela sente não é o da entrega, é o da vigilância. Eu também já saí de reuniões em que entreguei uma performance impecável e cheguei em casa sem conseguir dizer uma frase que fosse minha.

O que a madeira não devolve

Aqui a metáfora deixa de ser confortável.

O excesso de madeira não apenas cansa quem bebe, ele apaga a informação. Um vinho superbarricado de região quente e outro de região fria começam a se parecer. A baunilha é a mesma em qualquer latitude. O carvalho não tem terroir, tem fornecedor. O preço de parecer, então, não é apenas o cansaço, é a homogeneização: empresas deixam de se distinguir porque todas adotaram a mesma camada de acabamento, o mesmo vocabulário, a mesma estética. A indústria inteira passa a ter o mesmo bouquet.

E chegamos à pergunta que eu não consigo responder com elegância. Se a madeira saísse, o que restaria de fruta?

Já tentei fazer esse exercício comigo e ele é mais difícil do que parece. Não se trata de identificar o que é falso, porque quase nada é francamente falso. Trata-se de identificar o que continuaria existindo se ninguém estivesse olhando. Quais projetos eu tocaria se não houvesse apresentação de resultado. O que da minha rotina sobrevive sem plateia. A resposta honesta, na primeira vez, foi menor do que eu esperava.

Há um último detalhe que me persegue. O tempo trata as duas coisas de modo oposto. A fruta, quando existe de verdade, evolui na garrafa, ganha camadas, se transforma em algo que não estava previsto na juventude. A madeira apenas se dissipa. Ela recua com os anos e deixa exposto o que havia por baixo. Nada surge da madeira, ela só sai da frente. Por isso os grandes vinhos de guarda não são os mais barricados, são os que tinham matéria suficiente para sustentar a madeira e depois sobreviver a ela.

Perenidade empresarial funciona assim. O que atravessa a década não é a camada de acabamento, é o que estava por baixo dela quando o acabamento perdeu efeito. E o acabamento sempre perde efeito.

A segunda taça

Enquanto a última gota escorre pela taça, pense na garrafa pela metade na bancada. Ela é o veredicto mais honesto que existe sobre um vinho, e ninguém o pronuncia em voz alta. Ninguém diz que o vinho cansou. Simplesmente para de servir.

As pessoas fazem isso com marcas, com empresas, com líderes. Não anunciam que se cansaram, apenas param de pedir a segunda taça, e o silêncio disso demora muito para chegar em qualquer indicador.

Quanto da sua energia hoje sustenta o que você é, e quanto sustenta o que você precisa parecer? E se a madeira recuasse, agora, o que sobraria de fruta na taça?

Alexandre de Salles