Decantando Ideias #41: O valor do incômodo leal

Nem todo desconforto é traição, e nem todo silêncio é acordo. Sobre a acidez que sustenta uma decisão e a que a azeda por dentro.

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Decantando Ideias #41: O valor do incômodo leal
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Decantando Ideias Podcast #41: O valor do incômodo leal
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O primeiro gole que aperta

Sirva-se de uma taça, de preferência de um vinho com acidez viva. Deixe o primeiro gole chegar sem pressa e repare nas laterais da língua: aquele leve aperto, quase um susto, a salivação que antecede o prazer. Muita gente chama isso de incômodo. E é. Só que é esse incômodo que segura o vinho de pé.

Passei anos aprendendo a produzir reuniões agradáveis. Pauta cumprida, decisões tomadas, todos saindo com sensação de alinhamento. Havia um orgulho discreto nisso. Hoje eu desconfio dessa sensação, não porque atrito seja virtude, mas porque descobri, tarde, que existe um tipo de suavidade que não é harmonia. É perda de estrutura.

O nervo que sustenta o vinho

A acidez não é um corretivo jogado na cuba depois. Ela nasce na uva, vem do solo, da noite fria que preserva o ácido enquanto o açúcar amadurece. É matéria do próprio vinho, não corpo estranho. E é ela que decide quanto tempo aquele vinho vai viver.

Um vinho de baixa acidez pode ser generoso no primeiro gole, redondo, fácil, simpático. Guardado por três anos, desaba. Os enólogos usam uma palavra dura para isso: flácido. Não há nada de errado nele, e é exatamente por isso que não sobra nada dele.

Existe uma versão corporativa da flacidez. É a reunião que termina no horário, com todos concordando, e que produz uma decisão que ninguém defende seis meses depois. É a proposta aprovada por unanimidade porque ninguém tinha energia para abrir o assunto. A acidez, na uva e na mesa, é o que permite guarda. É o que faz uma decisão envelhecer sem apodrecer.

A acidez que serve e a acidez que estraga

Agora a parte difícil, porque nem toda acidez presta.

Existe um defeito chamado acidez volátil. Não vem da uva, vem de uma fermentação que escapou ao controle. O vinho começa a virar vinagre, e em uma adega mal cuidada aquilo não fica contido em um barril: contamina o que está ao lado.

Duas pessoas podem dizer a mesma frase, na mesma reunião, sem serem feitas da mesma substância. Uma diz na hora certa, olhando para quem decide, com a intenção de que a decisão fique melhor. Depois de perder o argumento, trabalha com dedicação incomum para que o caminho escolhido funcione. Eu vi isso em mesas de conselho e é das coisas mais bonitas que já presenciei na vida corporativa, ainda que ninguém aplauda.

A outra diz no corredor, depois, para quem não pode mudar nada. E quando o plano treme, aparece com duas palavras: eu avisei. Essa frase é vinagre. Não nutre, não corrige, apenas registra uma posição, e esse registro custa mais caro à empresa do que o erro original.

O teste do incômodo leal não está no momento do incômodo. Está no que vem depois da decisão.

Há ainda uma terceira variação, mais sofisticada. No vinho, é a acidez corrigida em laboratório para compensar uma uva amadurecida demais: tecnicamente o número fecha, sensorialmente algo não se integra. Na gestão, tem nome de ritual. É o advogado do diabo designado na pauta, a rodada obrigatória de objeções. Já organizei encontros assim e saí com uma sensação confortável de dever cumprido. O conforto deveria ter sido o alarme. Ninguém arriscou nada naquela sala. Todos performaram o risco.

Porque o incômodo leal cobra um preço de quem o oferece. Como CFO, já precisei ser a voz que diz que o número não fecha em uma sala que já comemorava. A parte desagradável nunca foi a discordância, foi o silêncio logo depois. A pausa. Alguém que diz vamos seguir e passa adiante.

E é por isso que ele só existe onde há vínculo. A acidez não vem de fora da uva. Quem critica sem viver a consequência faz outra coisa, que pode ser útil, mas não é lealdade. Lealdade aqui não é obediência, é implicação. É beber o mesmo vinho que ajudou a fazer.

Quando o silêncio deixa de ser acordo

Há outro lado dessa mesa, e é o meu quando eu não sou quem incomoda, mas quem recebe.

O que eu faço com quem me incomodou determina se alguém volta a me incomodar. Culturas não perdem a acidez por decreto, perdem por aprendizado. Basta um episódio: alguém falou, pagou o preço, e ninguém sustentou essa pessoa depois. A lição circula mais rápido do que qualquer valor escrito na parede.

E aqui está o que mais me inquieta. O silêncio ao redor de quem lidera raramente é neutro. Pode ser acordo, cansaço ou cálculo. E pode ser algo pior: indiferença. Quem parou de te incomodar talvez não tenha passado a concordar. Talvez tenha parado de investir. Incomodar é caro, e só paga esse preço quem ainda espera algo da relação.

Penso nisso quando falo de perenidade. As empresas que atravessam décadas não são as mais lisas, são as que preservaram algo que morde. Conselhos, comitês e rituais de decisão são tentativas de institucionalizar a acidez, de dar endereço ao desconforto para que ele não dependa da coragem individual de alguém numa terça-feira difícil. Mas já vi conselhos se reunirem por anos sem que ninguém arriscasse uma frase inteira. A estrutura cria o lugar, não a substância.

Fica comigo uma pergunta sem resposta limpa: como distinguir, dentro de mim, a discordância que serve à decisão daquela que serve à minha imagem? O único teste que encontrei é temporal e constrangedor de tão simples. Observar o que faço depois de perder. Se trabalho, era acidez. Se espero o tropeço para aparecer, era vinagre.

O que ainda morde depois do último gole

Enquanto a última gota escorre pela taça, repare no que fica. O açúcar vai primeiro, a fruta se dissipa, o álcool esquenta e passa. O que permanece, teimoso, é aquele nervo que fez você apertar os olhos no primeiro gole. É o incômodo que sobrevive, e é ele que faz você lembrar do vinho no dia seguinte.

Quem, na sua mesa, ainda paga o preço de te incomodar? E, na última vez que alguém pagou, o que você fez com essa pessoa?

Alexandre de Salles