Decantando Ideias #45: O que se aprende com a safra que não veio boa

Toda adega guarda um ano que ninguém quer abrir, e é nele que mora o que ainda não aprendemos sobre nós.

Compartilhar
Capa do episódio Decantando Ideias #45: O que se aprende com a safra que não veio boa
audio-thumbnail
Decantando Ideias Podcast #45: O que se aprende com a safra que não veio boa
0:00
/875

Sirva-se de uma taça, mas não da melhor garrafa da adega. Pense naquela que você evita. A de um ano em que choveu na hora errada, em que o granizo chegou antes da colheita, em que tudo o que podia sair do lugar saiu. Toda adega tem uma garrafa assim. Toda empresa também.

O curioso é que o mundo do vinho e o mundo corporativo tratam esses anos de maneiras opostas. Nas empresas, o ano ruim vira nota de rodapé, vira “contexto desafiador”, vira um slide com o mercado em queda e uma seta apontando para o ano seguinte. O produtor sério faz outra coisa. Ele não descarta o ano difícil. Ele o estuda. E desconfio que, na pressa de virar a página, muitas organizações estão jogando fora justamente o ano que mais teria a dizer sobre elas.

O caderno que ninguém mostra

Há um objeto que me fascina no universo do vinho, e ele não é a garrafa. É o caderno do produtor. Quem trabalha a vinha de verdade registra tudo: quando brotou, quanto choveu, qual parcela sofreu, que decisão foi tomada diante de cada imprevisto. Escreve o ano enquanto ele acontece, antes que a memória comece a enfeitá-lo.

Nos anos bons, as anotações são curtas. O clima colaborou, a uva amadureceu, a fermentação correu tranquila. O ano bom confirma o que o produtor já sabia. Nos anos ruins, o caderno engrossa. A chuva fora de época está ali, com data. A decisão de colher antes, para salvar o que ainda dava, está ali, com a dúvida que a acompanhou. E está ali a pergunta que todo produtor maduro se faz depois: o que foi o céu, e o que fui eu.

Com o tempo, as páginas mais consultadas daquele caderno não são as das grandes safras. São as das difíceis. É nelas que o produtor volta quando o tempo ameaça de novo.

Até no copo isso se percebe. O vinho de um ano difícil costuma ser mais magro, mais ácido, às vezes com um verde que denuncia a uva que não chegou ao ponto. Mas é também um vinho mais transparente. Não disfarça nada. Mostra o solo, mostra a mão de quem o fez, mostra cada escolha tomada sob pressão. No ano bom, qualquer um parece competente. No ano ruim, cada decisão aparece.

Chuva ou escolha

Ao longo de muitos anos como CFO, e depois sentado em conselhos, vi uma cena se repetir. O ano fecha mal, o resultado vem muito abaixo do orçado, e a apresentação que chega à mesa tem dezenas de páginas sobre o clima. O mercado que encolheu, o câmbio que virou, o crédito que secou, o concorrente que derrubou preço. Tudo verdade, muitas vezes. Mas tudo do lado de fora.

Lembro de uma dessas reuniões em particular. Folheando o material, percebi que nenhuma página falava de nós. Nenhuma perguntava que decisões tínhamos tomado, apoiados em que premissas, e quais dessas premissas não resistiram ao ano. Quando sugeri que separássemos o que tinha sido chuva do que tinha sido escolha, a sala ficou em silêncio. Até que alguém, com a melhor das intenções, disse a frase que encerra quase todas as conversas desse tipo: vamos olhar para frente.

Olhar para frente é mais leve. Mas olhar para frente sem olhar para trás é plantar a próxima safra sem abrir o caderno da anterior.

A cultura empresarial celebra o acerto com enorme generosidade. O case de sucesso vai para a convenção, o projeto vitorioso ganha padrinho e história bonita. A safra ruim é empurrada para o fundo da adega. O projeto que falhou some do organograma sem autópsia. A unidade que deu prejuízo muda de nome, como se trocar o rótulo mudasse o vinho. O executivo que conduziu a decisão sai e leva a lição embora com ele.

E há uma armadilha ainda mais sutil: a do ano bom. Quando o resultado vem forte, ninguém pede pós-morte. O sucesso absolve tudo. A expansão mal desenhada parece genial enquanto o mercado cresce. O controle frouxo parece agilidade enquanto o caixa sobra. A bonança ensina pouco, porque confirma nossas crenças e nos convence de que o método é nosso, quando boa parte dele era do clima. Só a adversidade separa com nitidez a qualidade da decisão da qualidade do resultado. Quem não aprende essa distinção passa a vida confundindo sorte com competência, e premiando as pessoas erradas.

Não sou imune a isso. Também já tive anos que quis esquecer depressa, e já atribuí ao céu o que, olhando com calma, tinha a minha mão. Admitir isso não tem nada de heroico. É só o começo da honestidade.

As páginas arrancadas

Se eu tivesse que resumir numa imagem o que vejo em muitas organizações, seria esta: um caderno de vinha com páginas arrancadas. As dos anos bons estão todas lá, bem escritas. As dos anos ruins foram removidas, por vergonha, por medo ou por pressa. E quem chega depois herda uma história que parece uma sequência de acertos interrompida por acidentes inexplicáveis.

Arrancar páginas não custa apenas o aprendizado. Ensina, em silêncio, que o erro não pode ser escrito. E uma cultura em que o erro não pode ser escrito é uma cultura em que o erro passa a ser escondido. Primeiro o grande, depois o pequeno, depois o que ainda está acontecendo.

Ninguém escreve a página verdadeira onde a página verdadeira é punida. Quem precisa escrever primeiro é quem lidera. O líder que diz em voz alta “esta decisão foi minha e não resistiu” dá permissão para que o resto da organização faça o mesmo. Nenhum ritual substitui esse gesto. Por isso, quando me sento num conselho diante de um ano ruim, não pergunto de quem foi a culpa. Pergunto o que ficou anotado.

A sustentabilidade de um negócio, essa capacidade de permanecer relevante, íntegro e viável ao longo do tempo, não depende de nunca ter uma safra ruim. Depende de transformar cada safra ruim em memória que fica, em critério para a próxima decisão, em humildade para o próximo ano bom. Quem atravessou um ano difícil com honestidade chega à safra seguinte sem a arrogância de quem acha que fez tudo sozinho.

A última anotação

Enquanto a última gota escorre pela taça, volto àquela garrafa do fundo da adega. Talvez ela não seja o melhor vinho da casa. Mas pode ser o mais importante, porque foi ali que o produtor descobriu os limites do próprio método e o tamanho real da sua coragem.

As safras boas a gente celebra. As ruins, a gente estuda. E é no estudo, não na celebração, que o caráter amadurece.

Se alguém abrisse hoje o caderno da sua empresa na página do ano mais difícil, encontraria o que vocês aprenderam ou apenas o que alegaram? E, se a página não estiver lá, quem a arrancou?

Alexandre de Salles