Gestão & Sustentabilidade #37 — O retorno do fator humano na era do algoritmo

A armadilha da eficiência: por que a sabedoria humana é o novo CAPEX

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Gestão & Sustentabilidade #37 — O retorno do fator humano na era do algoritmo

A sala de reuniões do conselho costumava ser um lugar de ruído.
O som de papéis sendo virados, o clique nervoso das canetas, o debate acalorado sobre onde e como alocar capital.

Hoje, em muitas das empresas que audito ou aconselho, impera um silêncio asséptico.

Telas de alta definição projetam dashboards preditivos alimentados por inteligência artificial. Eles nos dizem não apenas o que aconteceu, mas o que vai acontecer — com uma precisão estatística sedutora, quase hipnótica.

E é justamente nesse conforto silencioso que mora o dilema.

Estamos confundindo velocidade com direção?

A perenidade de um negócio não se constrói na rapidez da resposta, mas na sabedoria da pergunta.
E máquinas, por mais sofisticadas que sejam, não sabem perguntar “por quê?”.


A miragem da eficiência absoluta

Vivemos a ressaca da euforia tecnológica.

Entre 2023 e 2024, testemunhamos uma verdadeira corrida do ouro corporativa. O AI-first virou mantra. Automatizar passou a ser sinônimo de modernidade. Reduzir headcount, uma prova de coragem executiva. Substituir decisões humanas por “caixas-pretas” algorítmicas, um sinal de sofisticação.

O mercado financeiro aplaudiu.

Mas os dados de 2025 começam, silenciosamente, a revelar as fissuras dessa fundação.

Surge então um fenômeno ainda pouco discutido: o Déficit de Governança Digital.

Empresas que automatizaram suas interações com clientes e cadeias de suprimentos, de fato, ganharam margem operacional no curto prazo. Porém, perderam algo que não aparece no balanço patrimonial tradicional: sensibilidade periférica.

Quando uma crise reputacional emerge, ou quando uma cadeia global se rompe por eventos climáticos fora do padrão histórico de treinamento do modelo, o algoritmo segue otimizando para um cenário que já não existe.

A eficiência, paradoxalmente, torna-se fragilidade.

O que antes era visto como gargalo — a inação humana — revela-se agora como o único seguro real contra o colapso sistêmico.


Desconstruindo o mito do piloto automático

Durante décadas, a gestão financeira e operacional buscou eliminar a variância.

Erro humano. Hesitação. Dúvida.
Tudo tratado como “resíduo” a ser expurgado por metodologias como Six Sigma ou por sucessivas ondas de transformação digital.

Mas, sob a lente da perenidade, essa variância tem outro nome: adaptação.

O erro central de muitos líderes foi tratar a Inteligência Artificial como substituta da estratégia, e não como ferramenta tática.

A IA é uma máquina de previsão baseada no passado.
A estratégia é um ato de julgamento voltado à construção de futuros inéditos.

Quando delegamos governança aos algoritmos, abdicamos da nossa responsabilidade fiduciária mais sagrada: fazer escolhas éticas em cenários de incerteza.

Vi isso de perto.

Um CFO celebrou a redução de 30% nos custos de back-office via automação. Seis meses depois, a empresa enfrentava uma crise de imagem devastadora. O algoritmo de precificação — tecnicamente impecável — praticou valores predatórios durante uma calamidade pública, ignorando completamente o contexto social local.

O “lucro” da eficiência foi pulverizado em semanas.

Não faltou tecnologia.
Faltou alguém que dissesse:
“O modelo diz que podemos. A nossa ética diz que não devemos.”


Governança como bússola estratégica

Se queremos construir negócios que atravessem décadas, precisamos recolocar o humano no centro do loop decisório.

Chamo isso de Human-in-the-Loop Strategy.

Não é saudosismo analógico.
É vantagem competitiva de última geração.

A sustentabilidade empresarial exige um novo “G” no ESG: Governança Algorítmica Consciente.

Empresas como a Unilever compreenderam isso cedo. Ao invés de substituir gestores por IA generativa, utilizaram a tecnologia para libertá-los das planilhas — devolvendo tempo para entender nuances culturais, comportamentais e sociais dos mercados locais.

O resultado não foi apenas eficiência. Foi inovação com sentido.

No setor bancário de alta renda, vemos algo semelhante. Instituições como o JPMorgan reposicionam seus profissionais não como processadores de transações, mas como arquitetos de legado. A IA varre cenários. O humano decide. E aconselha.

A proposta prática é clara:

Para cada real investido em IA (CAPEX Tecnológico), invista proporcionalmente em CAPEX de Sabedoria.

Treinamento ético.
Comitês multidisciplinares.
Desenvolvimento de pensamento crítico.

E, sobretudo, um “Botão de Pânico Ético”: qualquer colaborador deve ter autoridade para interromper a automação quando ela viola o propósito da empresa.


O CFO como guardião do tempo

Aqui entra o Olhar de CFO que defendo nesta série.

Durante anos, aprendemos a enxergar CAPEX como tijolo, máquina e software. Hoje, precisamos reconhecer que cultura organizacional é o ativo de maior liquidez — e maior risco — da empresa.

O CFO moderno não é apenas guardião do caixa.
Ele é guardião do tempo.

O curto-prazismo algorítmico, alimentado por metas trimestrais e modelos de trading, é inimigo natural da perenidade.

Cabe ao CFO e ao CEO, em uníssono, defenderem diante do conselho que redundância humana não é gordura. É resiliência. É absorção de choques que nenhum modelo matemático previu.

Investir em líderes capazes de questionar a IA é, sim, uma decisão de alocação de capital.

O ROI desse investimento não aparece no próximo trimestre.
Ele se revela na crise que não aconteceu.
Na reputação que não foi manchada.
Na confiança que o mercado ainda deposita na sua marca daqui a dez anos.


Gestão, propósito e permanência

Sustentabilidade empresarial é, no fundo, gestão inteligente das interdependências.

Empresas em piloto automático ignoram as mudanças sutis do ecossistema social e ambiental — até que seja tarde demais.

A verdadeira inteligência não é artificial.
Ela é relacional.

Está na capacidade de compreender que saúde financeira depende da saúde da comunidade, da motivação intrínseca das pessoas e da confiança dos stakeholders.

Perenidade exige que saiamos da tela e voltemos a olhar nos olhos.

A tecnologia deve ser o vento nas velas.
Mas a mão no leme precisa ser humana — calejada pela experiência e guiada por um propósito que nenhum código binário consegue decifrar.

O futuro não pertence aos mais rápidos.
Pertence aos mais conscientes.


Alexandre de Salles
Vamos construir negócios que perdurem.

Alexandre de SallesSou Alexandre de Salles, estrategista e escritor. Ex-CFO e hoje CEO da (AS) Consultoria, ajudo líderes a tomar decisões que resistem ao tempo e à incerteza. Aqui compartilho reflexões sobre gestão, estratégia e sustentabilidade com leveza.