Gestão & Sustentabilidade #28: a pressa é inimiga da consistência

Como líderes visionários transformam paciência estratégica em vantagem competitiva duradoura.

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Gestão & Sustentabilidade #28: a pressa é inimiga da consistência

Quando o foguete perde a pista

No Brasil, já vimos impérios nascerem e ruírem em questão de poucos anos — não por falta de ambição, mas por excesso de pressa. O caso da Americanas, com a implosão de sua governança revelada em 2023, mostrou como a busca por resultados e expansão acelerada pode esconder fragilidades fatais. O mesmo aconteceu com diversas startups que surfaram o boom dos unicórnios: cresceram como foguetes, mas aterrissaram sem pista. Magalu e Via Varejo, por exemplo, viveram ciclos de euforia e retração ao acelerar aquisições e operações sem a mesma velocidade de integração e consolidação. São lições recentes que deixam claro: velocidade, sem consistência, é receita para volatilidade — e não para perenidade.

A ideia central que guia esta reflexão é simples, mas insistente: a consistência não é inimiga da ambição. Pelo contrário, é o alicerce que sustenta o crescimento. Empresas que atravessam décadas não são as mais rápidas, mas as que encontram um ritmo que preserva saúde financeira, excelência operacional e reputação.


O calendário invisível da maturidade

Vivemos numa era em que “escala” virou mantra. Em conselhos e reuniões de investidores, a pergunta “Como vamos dobrar de tamanho?” aparece antes de “Estamos prontos para dobrar?”. Essa inversão de prioridades cria uma corrida em que o tempo parece mais importante que a direção — e o resultado é previsível: mais energia gasta apagando incêndios do que construindo estruturas.

Estudos da McKinsey mostram que 80% das empresas que crescem mais de 20% ao ano por três anos consecutivos enfrentam crises logo depois, se não investirem proporcionalmente em estrutura e governança. No Brasil, o Sebrae alerta que a mortalidade empresarial no segundo ciclo de expansão — aquele momento em que a empresa já sobreviveu à infância e quer acelerar — é quase tão alta quanto no início da operação.

Não são apenas startups que sofrem dessa “síndrome do próximo trimestre”. Varejo, indústria e serviços também caem na armadilha de priorizar metas agressivas sem revisar se a musculatura da empresa está preparada para suportar o novo peso.


O mito da velocidade como vantagem

Velocidade isolada pode até render manchetes e chamar atenção de investidores, mas não constrói muralhas duradouras contra a concorrência. Crescer rápido demais sem bases sólidas é como levantar um arranha-céu sobre um terreno sem sondagem: a estrutura começa a ceder sob o próprio peso.

A lógica “cresça primeiro, arrume depois” cobra um preço silencioso e alto. Turnover acelerado, queda na qualidade, decisões financeiras tomadas na urgência, desgaste da liderança e, talvez o mais caro, erosão da marca. A Americanas não ruiu por crescer rápido, mas porque negligenciou por tempo demais os sinais de que sua governança estava se tornando frágil. No ecossistema das startups, vimos histórias como a da Yellow, que prometia revolucionar a mobilidade urbana e desapareceu do mapa em menos de dois anos.

Quando a velocidade é maior que a capacidade de absorção, o crescimento deixa de ser trunfo e passa a ser ameaça.


O compasso que sustenta o crescimento

A saída não é trocar o acelerador pelo freio, mas aprender a tocar no compasso certo. Um crescimento saudável não acontece no grito, mas na cadência. E cadência é mais do que ritmo: é a disciplina de avançar consolidando cada conquista antes de partir para a próxima.

No campo financeiro, essa cadência se traduz em manter um fluxo de caixa projetado para vários cenários — inclusive o mais pessimista —, como se a empresa fosse obrigada a atravessar um inverno prolongado. Também implica acompanhar de perto indicadores que revelam a saúde organizacional de forma ampla: não apenas a receita, mas a capacidade de reter talentos, a relação entre dívida e capital, o nível de satisfação de clientes e colaboradores. E, sobretudo, significa tratar cada decisão de investimento como uma declaração de futuro. CAPEX não é custo a ser minimizado — é um ato de fé calculado, que deve refletir propósito e visão de longo prazo.

A Natura soube respeitar esse compasso quando decidiu se internacionalizar: preferiu aquisições estratégicas com integração paciente, preservando cultura e proposta de valor. A Amazon, no cenário global, construiu um ciclo de reinvestimento disciplinado que sustenta sua relevância há mais de vinte anos.


Liderar é saber dizer “ainda não”

No papel da liderança, a tentação de acelerar é constante. CEOs e fundadores sentem o peso de investidores, concorrentes e manchetes. Mas liderar para a perenidade significa, muitas vezes, dizer “ainda não” — não porque falta coragem, mas porque falta estrutura para que o próximo passo seja seguro.

O CFO, nesse contexto, é o metrônomo que mantém o compasso da orquestra corporativa. É quem garante que o som da ambição não se transforme em ruído de colapso. Conselhos consultivos bem formados ajudam a manter essa cadência, questionando se o crescimento projetado é suportável pela cultura, processos e pessoas da organização.

Mais do que metodologia, trata-se de cultivar uma mentalidade que entenda consistência como resiliência organizada.


A paciência estratégica como ato de responsabilidade

Crescer com consistência é um compromisso coletivo. Com investidores, que esperam retorno sustentável. Com colaboradores, que apostam suas carreiras na empresa. Com clientes, que confiam na estabilidade do que recebem. E com a sociedade, que precisa de empresas sólidas para gerar impacto positivo no longo prazo.

Esse ritmo sustentável preserva o capital financeiro e o capital reputacional. Ele constrói uma vantagem competitiva quase invisível, mas extremamente poderosa: a previsibilidade de qualidade e entrega. É isso que faz com que, décadas depois, uma marca ainda seja sinônimo de confiança.


O passo que garante a próxima década

Negócios que queimam etapas costumam queimar o próprio futuro. Em um mundo obcecado por velocidade, ousar desacelerar para consolidar pode ser o ato mais revolucionário — e mais lucrativo — de um líder. Não se trata de frear a ambição, mas de criar o intervalo certo entre um passo e outro, como quem sabe que a música não se constrói apenas com notas, mas também com pausas.

Alexandre de Salles
Vamos construir negócios que perdurem.
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Alexandre de SallesSou Alexandre de Salles, CEO da (AS) Consultoria. Transformamos negócios em organizações resilientes e sustentáveis. Compartilho reflexões estratégicas sobre gestão e liderança, inspirando decisões com impacto positivo e visão de longo prazo.

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