Gestão & Sustentabilidade #24: TI verde e economia circular

Por que o futuro da sua empresa também passa pelo porão da TI?

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Gestão & Sustentabilidade #24: TI verde e economia circular

Na minha trajetória como CFO, aprendi que os maiores riscos raramente entram pela porta da frente. Eles se acumulam silenciosamente nos bastidores, naquilo que chamamos de “infraestrutura”. Gastos recorrentes que não questionamos, equipamentos que esquecemos de desligar, ativos que tratamos como invisíveis. E talvez nenhum setor represente melhor esse paradoxo do que a tecnologia da informação.

TI é o sistema nervoso das empresas — mas, muitas vezes, é também o seu calcanhar de Aquiles. É fácil subestimar o impacto de um data center que consome energia como uma fábrica. Difícil é mensurar o custo reputacional de toneladas de lixo eletrônico que nunca viram a porta da reciclagem. E mais difícil ainda é entender como tudo isso se conecta com governança, sustentabilidade e geração de valor.

Hoje, quero te convidar a olhar para esse porão negligenciado com olhos de CFO. E entender por que a TI verde e a economia circular já deixaram de ser pauta do setor de tecnologia — e passaram a ser uma alavanca de futuro para toda a empresa.


O custo oculto do que não se vê

Em 2024, os data centers consumiram o equivalente a 415 terawatts-hora, cerca de 1,5% de toda a energia elétrica gerada no mundo. Isso é mais do que países inteiros consomem. E a estimativa é que, até 2030, esse número dobre. Nos Estados Unidos, o crescimento é tão acelerado que já se fala em escassez energética local em função da explosão de projetos de inteligência artificial.

Como CFO, esse dado me chama atenção por dois motivos. Primeiro: porque esconde um custo real. Segundo: porque se transforma num risco silencioso quando não aparece no radar estratégico. Energia cara, instabilidade regulatória, falta de eficiência térmica, refrigeração ultrapassada. Tudo isso é dinheiro que escorre — e que, muitas vezes, não aparece nos relatórios de forma estruturada.

Mas o impacto vai além do financeiro. Quando deixamos de questionar o uso intensivo de energia, reforçamos um modelo de gestão que prioriza o curto prazo e ignora o legado. É como ter um carro de luxo parado na garagem, consumindo combustível em marcha lenta. Bonito por fora, mas insustentável por dentro.


TI verde: eficiência que gera caixa e reputação

A boa notícia? Já existem soluções concretas para inverter esse jogo. TI verde não é mais um conceito experimental — é uma realidade viável e, em muitos casos, financeiramente vantajosa.

Empresas que adotam práticas de virtualização, servidores com certificação Energy Star, refrigeração inteligente e cloud computing otimizada estão reduzindo drasticamente seus custos operacionais. Mais do que isso: estão criando narrativas de sustentabilidade com lastro técnico e financeiro.

E há inovações que vão além da eficiência: em algumas regiões da Europa, por exemplo, o calor gerado por data centers já é canalizado para aquecer bairros inteiros. O que antes era desperdício virou produto. Um exemplo elegante de como a TI verde pode sair do porão técnico e se conectar com impacto social — e até com novos modelos de receita.

Na prática, esse tipo de iniciativa exige liderança. E é aí que entra o CFO. Porque não basta saber que existe uma solução — é preciso incluí-la nas metas, nos orçamentos, nas projeções de ROI e nos relatórios ESG. A TI precisa deixar de ser um centro de custo oculto e se tornar um vetor estratégico de eficiência e reputação.


Economia circular: o ciclo como alavanca de valor

Como CFO, enxergo nessa prática três camadas de valor que, quando bem compreendidas, transformam a economia circular aplicada à TI de uma “boa ação ambiental” em uma poderosa estratégia corporativa.

A primeira camada é a redução de passivos ambientais e legais. O acúmulo de equipamentos eletrônicos sem destino adequado não é apenas uma falha operacional — é uma bomba-relógio regulatória. Em um cenário onde as legislações ambientais estão se tornando mais rigorosas e a rastreabilidade do descarte é exigida em auditorias, manter toneladas de e-lixo fora de um processo estruturado pode gerar multas, sanções e — pior ainda — danos irreversíveis à imagem da empresa. A circularidade cria um rastro documental confiável, alivia o jurídico e traz previsibilidade ao balanço.

A segunda camada é o fortalecimento reputacional. Em tempos de ESG como critério de investimento, não basta dizer que sua empresa se preocupa com o meio ambiente — é preciso demonstrar com números e iniciativas concretas. Ao integrar práticas de logística reversa e reaproveitamento de componentes, a organização sinaliza responsabilidade, inovação e transparência. Isso não passa despercebido por analistas, fundos e conselhos. É, literalmente, um ponto a mais no rating ESG — que pode influenciar custo de capital, acesso a investidores e até retenção de talentos.

A terceira camada talvez seja a mais subestimada: a monetização indireta. Em outras palavras, a economia circular não só evita perdas — ela pode gerar receita. Estamos falando de créditos de carbono por redução de impacto ambiental, de abatimentos fiscais vinculados à política de resíduos sólidos, de economias na aquisição de novos ativos através da reutilização interna, e até da criação de spin-offs ou parcerias com recicladores certificados. O que antes era resíduo passa a ser insumo. O que antes era custo, vira oportunidade.

Essa visão de três camadas é o que diferencia um olhar financeiro tradicional de um olhar estratégico. Porque não se trata apenas de “gastar menos” ou de “parecer sustentável” — trata-se de reconfigurar os fluxos de valor com inteligência e responsabilidade.


Liderança financeira para um futuro circular

Uma coisa me parece clara: quem estiver esperando que sustentabilidade chegue como demanda do setor de compliance ou do marketing, está atrasado. A liderança dessa agenda precisa vir da alta gestão — e o CFO tem um papel fundamental nesse processo.

Nos próximos ciclos estratégicos, o verdadeiro diferencial competitivo não será apenas reduzir custos, mas redesenhar a lógica de geração de valor. E isso passa por entender o ciclo de vida de cada ativo tecnológico, por investir em métricas robustas de eficiência, por enxergar reputação como capital estratégico — e não como benefício intangível.

Implantar metas de consumo energético, prever obsolescência no CAPEX, acompanhar indicadores de circularidade e reportar segundo padrões como o IFRS S1 e S2 são decisões que colocam o CFO na linha de frente de um novo modelo de negócio. Um modelo que não separa mais sustentabilidade de desempenho — porque entende que são a mesma coisa.


O porão virou vitrine

Costumo dizer que todo CFO precisa visitar, de tempos em tempos, o porão da sua empresa. Não aquele metafórico — mas o real, onde estão os servidores, os estabilizadores antigos, as máquinas desligadas que ninguém mais controla. Porque é lá que mora o futuro de muitas decisões.

TI verde e economia circular são mais do que boas práticas. São instrumentos de perenidade. São formas de garantir que as escolhas financeiras de hoje não comprometam o amanhã — e que cada real investido construa não só lucro, mas também um legado.

Negócios que investem em tecnologia sustentável não estão apenas economizando. Estão sinalizando ao mercado — e aos seus próprios times — que estão prontos para durar.

Você está pronto para liderar essa transformação?

Alexandre de Salles

Vamos construir negócios que perdurem.

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