Decantando Ideias #31: o assemblage da lucidez - O que a safra de 2025 nos deixa para beber em 2026

Separando a borra da essência: um manifesto sobre o que levar para 2026 e o que deixar no fundo da garrafa

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Decantando Ideias #31: o assemblage da lucidez - O que a safra de 2025 nos deixa para beber em 2026

Sirva-se de uma taça. Mas hoje, peço que você não beba buscando apenas o prazer imediato. Olhe para o líquido contra a luz. Gire a taça devagar. O ano de 2025 termina como um vinho complexo, cheio de sedimentos, daqueles que exigem paciência para serem compreendidos.

Não estamos aqui para fazer um inventário do que passou. Na enologia, olhar para a safra anterior não serve para nostalgia; serve para aprendizado. Serve para entender como o clima, o solo e as mãos de quem trabalhou influenciaram o resultado final.

Ao longo de todas as quintas-feiras deste ano, decantamos juntos uma série de angústias e epifanias. E agora, diante da iminência de 2026, precisamos fazer o corte final — o assemblage. O que, de tudo o que discutimos, merece ser engarrafado e levado para o futuro? E o que deve ser descartado como borra?

O corpo: a estrutura da sobrevivência

Se você fechar os olhos e lembrar das decisões que tomou este ano, qual é a sensação de peso na boca?

Começamos o ano tateando no escuro sobre o ritmo das coisas. Fomos, por vezes, seduzidos pela ideia de que acelerar era o único verbo possível. Mas, conforme as semanas passavam, percebemos que a pressa, no mundo do vinho e dos negócios, é uma ladra de complexidade. Conversamos sobre como crescer rápido demais, sem a devida consolidação, é como servir um vinho jovem e tânico sem deixá-lo respirar: ele agride, trava a boca e não entrega o que prometeu.

Houve momentos em que o mercado tentou nos convencer de que a “espuma” do crescimento valia mais que o líquido real. Mas a realidade se impôs. Aprendemos — às vezes da maneira mais dura — que o fluxo de caixa é a acidez que mantém o negócio vivo e fresco. Sem essa acidez, a estrutura fica flácida, enjoativa.

Para 2026, o que fica dessa longa conversa sobre estrutura é a certeza de que a “colheita antecipada” cobra seu preço. Não adianta querer colher resultados no primeiro trimestre se o tempo de maturação do projeto (ou da equipe) exige um ano inteiro. A natureza não negocia com o seu cronograma. Leve para o próximo ano a coragem de respeitar o tempo das coisas. A solidez será o novo crescimento.

O nariz: onde a tecnologia encontra a alma

Ao girarmos a taça de 2025, o aroma que subiu primeiro foi metálico, intenso, onipresente: a Inteligência Artificial.

Passamos boa parte do ano tentando entender se seríamos substituídos ou aprimorados. Mas, ao decantarmos esse medo, descobrimos notas mais sutis. Percebemos que, quanto mais a tecnologia avança, mais o “toque humano” se torna um artigo de luxo, um terroir que algoritmo nenhum consegue copiar.

Lembra-se de quando refletimos sobre a sabedoria versus a inteligência? A máquina processa; nós sentimos. A máquina responde; nós perguntamos. Esse foi, talvez, o grande insight olfativo do ano: a tecnologia pode nos devolver o tempo que perdemos. Mas o que faremos com esse tempo?

Se a resposta for “mais trabalho operacional”, teremos falhado. O convite para 2026 é usar esse tempo ganho para o silêncio. Para aquela pausa estratégica antes do primeiro gole. Para a criatividade que nasce não da abundância de recursos, mas das restrições e do incômodo. No ano que vem, a inovação real não virá de quem tem o melhor software, mas de quem tem a cultura mais propícia para a “fermentação” de ideias coletivas.

O paladar e o final de boca: a verdade da cultura

Finalmente, o que fica na boca depois que o vinho desce? O retrogosto. Aquilo que persiste.

Em 2025, batemos muito na tecla de que o que está no rótulo (o marketing) precisa corresponder ao que está na garrafa (a cultura). Vimos que cultura não é festa, não é happy hour, não é parede pintada. Cultura é estratégia invisível. É o cimento que segura o prédio quando o terremoto acontece.

Falamos sobre a cegueira das métricas, sobre como ficamos viciados em medir tudo e acabamos esquecendo de sentir o gosto do negócio. O perigo de olhar apenas para o painel de controle e esquecer de olhar para a estrada.

E, claro, o tema da sustentabilidade e da governança. Não como burocracia, mas como tempo de guarda. Como a garantia de que a empresa terá longevidade. Aquele conceito do “décimo homem” — a voz dissonante que nos salva do consenso burro — nunca foi tão necessário.

O Blend para 2026

Ao misturarmos a prudência financeira (corpo), a humanidade tecnológica (aroma) e a coerência cultural (paladar), temos o perfil do líder necessário para 2026.

Este ano nos ensinou que a “maldição da clareza” — ver os problemas antes que eles aconteçam — é, na verdade, uma bênção. É o que separa o enólogo amador do mestre de adega.

Para a próxima safra, meu desejo é que você seja menos reativo e mais intencional. Que entenda que o “terroir cultural” da sua empresa é único e não pode ser gerido com fórmulas prontas de LinkedIn.

Que em 2026 saibamos diferenciar o que é sedimento (que deve ser deixado no fundo da garrafa) do que é essência. O ano que passou foi de aprendizado intenso. O ano que vem será de aplicação rigorosa.

A taça está servida. O futuro aguarda.

Saúde e até a próxima safra.

Alexandre de Salles.

Alexandre de SallesSou Alexandre de Salles, estrategista e escritor. Ex-CFO e hoje CEO da (AS) Consultoria, ajudo líderes a tomar decisões que resistem ao tempo e à incerteza. Aqui compartilho reflexões sobre gestão, estratégia e sustentabilidade com leveza.