Decantando Ideias #14: o ESG que respira
Entre a conveniência e a convicção
Sustentabilidade não é tendência — é decisão estratégica com impacto real. Como conciliar propósito e pragmatismo sem sufocar o sentido?
Sirva-se de uma taça e respire comigo.
Porque hoje a conversa exige fôlego — daqueles que não cabem num post rápido ou numa frase de efeito. Assim como um bom vinho precisa de tempo para revelar sua identidade, o ESG também precisa respirar. E eu não estou falando de relatórios coloridos nem de metas apressadas, mas de convicção. De coerência. De propósito com tempo.
Faz tempo que observo o modo como o tema ESG foi ganhando espaço nas mesas de decisão. E confesso: me alegrei com o avanço — mas também me preocupei com a velocidade. Porque ideias complexas que não são decantadas viram slogans. E slogans, por mais bonitos que pareçam, não sustentam estratégias.
Entre modismos e maturação
Nos últimos anos, vi empresas correrem para se alinhar às “melhores práticas ESG”. Foram criados comitês, contratadas consultorias, produzidos relatórios brilhantes. Mas, em muitas dessas organizações, o ESG ainda não passou da superfície. Não se integrou ao negócio. Não virou critério de decisão.
Vi projetos ambientais que ignoravam o impacto social ao redor. Vi políticas de diversidade que só chegavam até o RH. Vi governança que existia no papel, mas não na prática. E vi, principalmente, líderes confusos: pressionados a “fazer ESG”, mas sem espaço para entender o que isso realmente significava.
É como servir um vinho nobre sem deixá-lo respirar. O que poderia ser uma experiência rica e transformadora vira apenas um gole áspero. Ainda tem potencial — mas está preso. Fechado. Rígido.
O ESG que me interessa
Não me movo pelo modismo. E, quando penso em ESG, penso em algo muito mais profundo do que uma estratégia de reputação.
Penso em decisões difíceis. Em dilemas reais. Em escolhas que nem sempre agradam a todos, mas que expressam valores com clareza.
O ESG que me interessa é aquele que afeta o planejamento estratégico. Que atravessa o orçamento, o organograma, o modelo de negócio. Que muda incentivos, que altera a maneira como o sucesso é medido. Que obriga a empresa a olhar para o longo prazo — e para os impactos que muitas vezes preferia ignorar.
Esse ESG não cabe numa planilha. Ele exige escuta, consistência e, sobretudo, coragem.
O falso dilema entre propósito e resultado
Muita gente ainda trata ESG como se fosse o oposto do pragmatismo. Como se cuidar do meio ambiente, respeitar as pessoas e fortalecer a governança fosse um desvio da rota de geração de valor.
Mas eu, sinceramente, nunca vi incoerência entre essas dimensões.
Aliás, o que me parece incoerente é acreditar que um negócio será competitivo em 2030 ignorando as crises climáticas, sociais e institucionais do nosso tempo. Ou acreditar que uma empresa sobreviverá ilesa ao escrutínio público se sua cultura interna for dissonante da sua narrativa externa.
Conciliar propósito e resultado não é utopia — é necessidade. É inteligência estratégica. Como um bom vinho, que equilibra acidez, tanino, álcool e fruta, uma empresa precisa harmonizar todos os seus elementos para entregar consistência.
Nesse ponto, gosto de lembrar uma frase de Paul Polman, ex-CEO da Unilever, que liderou uma das maiores transformações sustentáveis do setor:
“Empresas que servem a todos os seus stakeholders — consumidores, funcionários, fornecedores e comunidades — prosperarão. As que não o fizerem desaparecerão.”
É mais do que uma previsão — é um diagnóstico.
A armadilha da conveniência
Já vi discursos ESG impecáveis desmoronarem diante de um escândalo trabalhista. Já vi empresas perderem talentos brilhantes por falta de coerência entre seus valores e suas práticas. Já vi conselhos se surpreenderem com a perda de competitividade de negócios que, no papel, estavam em conformidade com todos os critérios de sustentabilidade.
Mas a verdade é simples: conveniência não constrói legado. E o mercado — aos poucos — está separando quem decanta ideias de quem apenas as engarrafa.
Talvez você, como eu, esteja cansado de ver apresentações bonitas que não dialogam com a realidade operacional. Ou de ouvir sobre "impacto positivo" enquanto se ignora o sofrimento de uma comunidade. Ou de testemunhar uma cultura tóxica que convive com selos ESG estampados nas redes sociais.
É por isso que acredito: precisamos deixar o ESG respirar. Não como uma pausa — mas como uma escolha.
Deixar respirar é integrar
Na minha trajetória, o que mais aprendi foi que boas ideias só prosperam quando ganham contexto. Quando não são impostas, mas compreendidas. Quando não são apenas executadas — mas apropriadas.
E com o ESG não é diferente.
Decantar uma estratégia ESG é ouvir as tensões internas. É reconhecer os paradoxos. É aceitar que há contradições inevitáveis — e que elas não invalidam o caminho, apenas exigem maturidade. É construir pontes entre o que é desejável e o que é viável, sem abandonar a responsabilidade de fazer melhor.
E é também ter paciência. Porque mudanças culturais profundas não acontecem com “sprints de inovação”. Elas se sedimentam com o tempo. Com repetição. Com exemplo.
O convite que faço — com uma taça na mão
Hoje, quero fazer um convite sincero: não engarrafe o ESG. Não sirva esse tema em copos plásticos. Não o trate como um checklist. Nem como obrigação.
Trate-o como um vinho promissor. Que precisa ser entendido. Que pede tempo. Que exige confiança na sua evolução. Que talvez ainda pareça verde — mas, se bem cuidado, pode se tornar o melhor rótulo da sua história empresarial.
E, acima de tudo, trate-o com verdade.
Porque, no fim das contas, as pessoas (e o mercado) percebem quando um discurso é só performance. E percebem, também, quando é genuíno. Quando nasce de uma convicção silenciosa, mas firme — como um vinho que respira e finalmente se revela.
Enquanto a última gota escorre pela taça, deixo a provocação:
Você está realmente disposto a decantar o ESG da sua empresa — ou vai continuar servindo o rótulo mais conveniente do momento?
Um brinde às ideias que respiram antes de se tornarem ação.
Alexandre de Salles