Decantando Ideias #13: cegueira por métricas
Quando KPIs escondem a realidade
Sirva-se de uma taça e permita-se alguns minutos de introspecção. Porque nem todo número ilumina — e nem toda meta guia. Como no vinho, onde nem sempre o brilho na taça antecipa a profundidade no paladar, a gestão moderna também corre o risco de se encantar com o superficial. Hoje, decantamos uma questão delicada: o que acontece quando o excesso de métricas embota a visão estratégica?
O vício do visível
Vivemos uma era de hiperquantificação. Tudo se mede. Tudo se compara. Tudo se transforma em painel.
De um lado, dashboards elegantemente atualizados em tempo real. Do outro, decisões automatizadas, relatórios sobre relatórios e reuniões onde o PowerPoint virou oráculo. De repente, a gestão passou a olhar mais para os indicadores do que para o que eles representam.
É como descrever um vinho exclusivamente pela sua análise química: teor alcoólico, acidez total, IPT, índice de polifenóis. Uma ficha impecável — mas nenhuma pista sobre o impacto que ele tem quando toca o céu da boca.
O número virou fetiche. Mas gestão não é só matemática — é leitura simbólica, conexão humana e, sobretudo, escolha com consciência.
Quando medir vira uma forma de não sentir
Métricas são fundamentais — mas perigosas quando absolutizadas. Elas oferecem conforto, mas também distanciamento. Nos permitem gestionar sem encostar. São mapas que nos poupam do campo.
E aqui reside a armadilha: ao nos dar a impressão de controle, as métricas podem nos afastar do real.
Veja o caso da WeWork. Durante anos, seus indicadores de crescimento pareciam sólidos: expansão acelerada, ocupação crescente, valuation em alta. Mas o modelo era frágil. O glamour da escala ofuscava a falta de consistência no core business. Os KPIs estavam “batendo”. O negócio, não.
Ou pense nas metas de produtividade em centros logísticos, onde bater o número pode significar ignorar pausas básicas para descanso. O indicador sinaliza eficiência. Mas o que está fora do quadro? Saúde, dignidade, sustentabilidade da operação.
É como se estivéssemos tentando medir o aroma de um vinho com uma régua — e, claro, nos convencendo de que estamos fazendo um bom trabalho.
A cegueira seletiva da alta performance
O mais perigoso não é o que se mede. É o que se deixa de medir. E mais ainda: é o que se recusa a perceber.
• Medimos o NPS, mas evitamos as conversas difíceis com clientes que desistiram antes de responder a pesquisa.
• Medimos o número de entregas por sprint, mas não a qualidade da interação entre times.
• Medimos o churn, mas ignoramos as frustrações silenciosas que antecedem cada cancelamento.
• Medimos o lucro, mas esquecemos de perguntar: a que custo humano, ambiental ou cultural ele veio?
A cultura da métrica nos leva a correr onde há trilha — mesmo que não leve a lugar algum. Afinal, onde conseguimos medir, conseguimos mostrar. E o que não mostramos... simplesmente some.
O perigo do indicador que vira identidade
Há outro fenômeno preocupante: quando o KPI deixa de ser apenas ferramenta e passa a ser identidade organizacional. Empresas que vivem “para bater meta”, não para gerar valor. Pessoas que se definem por OKRs, não por propósito. Times que medem tudo — menos o que os conecta.
Lideranças assim confundem direção com resultado. Acham que crescer é escalar métrica, não expandir relevância.
É como uma vinícola que decide aumentar a produção anual a qualquer custo — mesmo que isso comprometa o terroir, a história, o sabor único que a tornava memorável. Os números crescem. A essência, evapora.
A gestão que precisa reaprender a escutar
Talvez estejamos precisando de menos métrica e mais sensibilidade. Menos painel e mais escuta. Menos PowerPoint e mais presença.
A boa liderança sabe que há verdades que não cabem em planilhas. Que decisões não são apenas baseadas em dados, mas também em dilemas, intuições, desconfortos. Que nem tudo que importa é mensurável — e nem tudo que é mensurável importa.
Isso não é uma crítica à análise de dados. É uma crítica ao uso dogmático dos dados, que empobrece a gestão. Porque indicadores são bússolas — não destino.
Decantar é ir além do rótulo
Como no vinho, onde a complexidade real só se revela após algum tempo de decantação, nas empresas também é preciso deixar as questões respirarem antes de agir. Há aspectos que o gráfico jamais captará. Há dilemas que não serão resolvidos com OKRs.
Empresas que ousam decantar suas decisões observam o contexto com mais clareza. Olham para os dados e perguntam: o que eles não estão me dizendo? Escutam o cliente para além do formulário. Percebem os silêncios da equipe. Intuem o que está por vir — mesmo sem sinal nos números.
A gestão que decanta não se satisfaz com o óbvio. Ela busca o que está no fundo da garrafa, nas camadas invisíveis, no que exige atenção e tempo para ser percebido.
Então, enquanto sua taça descansa, uma pergunta incômoda: sua empresa está gerando clareza ou apenas produzindo gráficos bonitos? Você está medindo o que é importante — ou apenas o que é fácil de medir?
Um brinde às lideranças que enxergam além do painel.
Alexandre de Salles
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