Decantando Ideias #11: e se a máquina te devolver a vida que você esqueceu?
Entre respostas instantâneas e silêncios necessários, uma provocação sobre o tempo, a aprendizagem e o que significa continuar humano na era da inteligência artificial.
Sirva sua taça, e permita-se alguns minutos de contemplação.
Há algo quase poético no fato de que a tecnologia mais disruptiva dos nossos tempos – a inteligência artificial – esteja nos forçando a revisitar aquilo que temos de mais essencial: nossa humanidade.
Vivemos cercados por comandos, alertas e respostas automáticas. Tudo parece urgente. Mas, ao escutar Miguel Fernandes no TEDx São Paulo, uma frase ficou ali, maturando como um bom vinho: “É a primeira vez que uma tecnologia me dá tempo para exercer a minha humanidade.”
Essa afirmação carrega mais do que alívio — carrega provocação. Porque talvez a maior revolução da IA não esteja no que ela faz por nós, mas na pergunta que ela nos devolve: o que faremos com o tempo que ela economiza?
Hoje, seguimos decantando esse dilema. Não apenas tecnológico, mas profundamente existencial. Afinal, entre a pressa dos dados e a pausa do entendimento, é o humano que ainda precisa decidir o que vale a pena ser vivido.
A ilusão da eficiência absoluta
Na minha trajetória como CFO e consultor estratégico, vi muitas empresas caírem na armadilha da eficiência mal compreendida. Otimizam tudo — processos, custos, relatórios — mas esquecem de otimizar o que realmente importa: o tempo de pensar.
A IA chega com a promessa de fazer mais, mais rápido. E ela cumpre. Mas o risco é sutil: ao terceirizar tarefas, acabamos terceirizando também a reflexão. Automatizamos até a dúvida. E sem dúvida, não há profundidade — só execução.
Miguel Fernandes nos provoca ao dizer que o aprendizado é uma “ineficiência necessária”. E é mesmo. Na gestão, nos negócios, nas escolhas da vida, é no tropeço que a convicção se lapida.
Já vi planos financeiros brilhantes falharem por falta de escuta. Estratégias de crescimento ruírem por excesso de certeza. A IA pode calcular probabilidades, mas não substitui o julgamento de quem já precisou tomar uma decisão difícil em meio à incerteza — nem o frio na barriga de quem sabe que não há modelo que preveja o comportamento humano.
Como no vinho, a qualidade não está só nos dados da ficha técnica, mas no que acontece quando ele encontra o tempo, o ar e a sensibilidade de quem sabe esperar.
Quando aprender deixa de ser um caminho e vira um atalho
Em um dos projetos que conduzi, liderei a implementação de um novo modelo de negócios em uma empresa familiar que atravessava uma fase crítica. O desafio não era técnico — era cultural. Os números faziam sentido, mas os significados por trás deles ainda não tinham maturado.
A mesma lógica se aplica à aprendizagem na era da IA.
Na palestra, Miguel ilustra isso com o exemplo de um estudante que pede à IA uma redação pronta. A tarefa é cumprida. O problema é que o cérebro não foi convocado a pensar. Não houve atrito, não houve elaboração.
Nos ambientes empresariais, vejo o mesmo acontecendo: líderes que adotam a IA para ganhar tempo, mas perdem o processo. E sem processo, não há evolução — só resultado. Resultado, aliás, que vem com gosto metálico quando não foi metabolizado com consciência.
A IA pode nos dar atalhos, mas somos nós que escolhemos se vamos usá-los para fugir do caminho ou para expandir a jornada.
O viés está no prompt, não só no algoritmo
Com mais de 25 anos observando como decisões são tomadas em diferentes níveis — do conselho à operação —, uma verdade se impôs: não existem decisões neutras. Toda escolha carrega uma visão de mundo, uma intenção, um viés.
Quando Miguel narra o caso do estudante que usou a IA para "provar" a traição de Capitu, o que está em jogo não é só literatura. É um espelho da nossa tendência de usar a tecnologia para confirmar crenças, não para expandir horizontes.
Na gestão, isso se traduz em relatórios moldados para reforçar narrativas, indicadores escolhidos para embasar argumentos já prontos, análises enviesadas por objetivos ocultos. A IA só potencializa isso.
Ela entrega com autoridade sintética aquilo que pedimos. O problema é que muitas vezes pedimos pouco — ou pior, pedimos mal. O prompt mal formulado é como uma safra mal colhida: não importa a tecnologia disponível, o sabor final será comprometido.
O pensamento crítico, que tantos tratam como “soft skill”, deveria ser rebatizado: é uma competência de sobrevivência. É ele que nos salva da sedução dos dados e nos lembra que, entre a resposta correta e a resposta significativa, existe um abismo que só a consciência humana pode atravessar.
O tempo que nos é devolvido
Em 2023, entre projetos intensos, mentorias e gestão de times remotos, me peguei, certa noite, adiando pela terceira vez um jantar com minha esposa. Motivo? Um relatório urgente, que no fundo, não precisava de mim — só da minha assinatura.
Hoje, esse tipo de entrega pode ser gerado por IA. E essa constatação não me ameaça — me liberta.
Miguel contou sobre o tempo que ganhou para ver o pôr do sol com seu filho Joaquim. Eu me reconheço nesse gesto. A IA pode resumir notícias, projetar cenários, antecipar riscos — mas ela nunca vai substituir o valor de um momento vivido com presença.
O futuro do trabalho, da liderança e da própria gestão não está em quem usa melhor a IA, mas em quem entende para quêela deve ser usada.
Se a tecnologia pode me devolver tempo, que seja para estar onde faço mais falta: escutando, percebendo, conectando. Nas entrelinhas dos negócios e nos silêncios da vida.
E você? Está apenas acelerando — ou aprendendo a respirar?
Enquanto a última gota escorre pela taça, deixo uma provocação mais íntima: que parte da sua vida você automatizou sem perceber?
A IA é ferramenta, não destino. É meio, não fim. E como todo bom vinho, precisa ser servida com intenção. Senão, vira ruído. Vira espuma. Vira mais uma distração em um mundo já saturado de pressa.
A decisão mais estratégica da sua carreira pode não estar no próximo algoritmo, mas na escolha de estar presente para o que nenhuma máquina pode viver por você.
Um brinde às pausas que nos ensinam mais do que qualquer dashboard.
E aos líderes que ainda escolhem a consciência antes da performance.
Alexandre de Salles