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# Decantando Ideias #43: Quando a presença volta a valer mais que a performance
- URL: https://decantar.alexandredesalles.com.br/decantando-ideias-43-quando-a-presenca-volta-a-valer-mais-que-a-performance/
- Published: 2026-09-03T21:00:00.000Z
- Updated: 2026-09-22T13:05:41.000Z
- Description: Num tempo em que a eficiência ficou barata, estar de fato tornou-se o luxo que poucas lideranças ainda sabem oferecer.
- Author: Alexandre de Salles
- Tags: Decantando Ideias, Newsletter

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Decantando Ideias Podcast #43: Quando a presença volta a valer mais que a performance

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**A terceira hora da garrafa**

Sirva-se de uma taça, mas não tenha pressa em julgá-la. Há coisas que só se revelam para quem fica, e o vinho me ensinou isso muito antes que a gestão me cobrasse a lição.

Na edição anterior, escrevi sobre a fadiga de parecer, o cansaço de viver de sinalização e vitrine. Saí daquele texto com uma pergunta: se o excesso de parecer esgota, o que nos devolve o fôlego? A resposta que encontrei é quase desconcertante de tão simples. A presença. Estar de fato, escutar sem preparar a resposta, perceber o que não foi dito.

Durante muitos anos, a eficiência foi o diferencial raro, e a presença era pressuposto. Hoje, com a eficiência automatizada e disponível em qualquer tela, é a presença que ficou escassa. E o que fica escasso volta a valer.

**O vinho da feira e o vinho da mesa**

Numa grande feira de degustação, provamos dezenas de rótulos em pequenas doses, a cuspideira ao lado, a caneta anotando impressões antes da próxima taça. Ali vence o vinho que se apresenta bem em segundos: fruta imediata, madeira evidente, corpo que se anuncia antes de ser compreendido.

Num jantar, é diferente. Uma única garrafa, pessoas sem hora para ir embora. O primeiro gole muitas vezes decepciona, o vinho está fechado, reticente. Uma hora depois, surgem notas que não estavam ali, terra molhada, ervas secas, uma acidez que antes parecia áspera e agora sustenta tudo. Na terceira hora, é outro vinho. Para quem o provou na feira, ele simplesmente nunca foi conhecido.

As organizações trocaram a mesa pela feira. O pitch de trinta segundos, o relatório de uma página, a reunião de quinze minutos com a câmera desligada, a resposta escrita antes de a mensagem ser lida até o fim. Julgamos pessoas e problemas como quem passa de mesa em mesa. E tudo o que se abre devagar, o analista reservado, a supervisora que precisa de uma segunda conversa para confiar, o problema que ainda não virou número, é descartado no primeiro gole.

**A agenda de duas horas que durou um dia**

Anos atrás, como diretor financeiro, fui visitar uma operação no interior. Duas horas no local, apresentação de indicadores, retorno no mesmo dia. A chuva fechou a estrada e eu fiquei o dia inteiro.

A apresentação da manhã foi impecável. Mas foi no fim da tarde, num banco ao lado da balança de caminhões, com café em copo de plástico e um supervisor de mais de vinte anos de casa, que eu entendi a operação. Ele me contou de um ajuste manual na pesagem que todos conheciam e ninguém havia formalizado. Não era fraude, era um improviso antigo que tinha virado rotina e que, com o tempo, se tornaria risco sério. Perguntei por que ninguém tinha levantado aquilo. Ninguém nunca ficou tempo suficiente para perguntar, ele respondeu.

A informação sempre esteve ali. Faltava alguém que ficasse.

Esse dia me obrigou a olhar para meu próprio orgulho da agenda cheia. Onze reuniões pareciam relevância, e-mails respondidos durante as reuniões pareciam produtividade. Em muitos desses dias, eu estava em todos os lugares e em nenhum. Nos conselhos, vejo a mesma tentação: é possível ler só o sumário no caminho, chegar com perguntas bem formuladas e sair com a sensação de dever cumprido. Isso é performance de governança. A presença do conselheiro está nas notas de rodapé, no tom de uma resposta difícil, no assunto que some da pauta sem explicação.

A automação não é o problema. Ela nos devolveu muito tempo. O problema é o que fizemos com ele. Em muitas empresas, o tempo liberado pela máquina não virou presença, virou mais performance. Recebemos de volta a garrafa inteira e continuamos provando como se estivéssemos numa feira.

Por que não ficamos? Porque presença não fotografa bem, não gera métrica, ninguém é promovido por ter escutado com atenção. Porque ficar custa tempo. E porque ficar nos expõe: quem permanece à mesa também é visto. A performance protege, a presença desarma. Há ainda um risco que poucos admitem. Quem fica ouve o que não queria ouvir. A pressa, muitas vezes, não é falta de tempo. É uma forma elegante de não saber.

**Estar é uma forma de decidir**

Presença não é suavidade, é método. As informações mais relevantes de uma organização estão nas pausas antes de uma resposta, no desvio de olhar quando um número é mencionado, na equipe que antes discutia e agora apenas concorda. O líder presente decide com mais informação porque escuta frequências que o líder performático não sintoniza.

Mas presença não é onipresença. O líder que precisa estar em todas as reuniões não está presente, está ocupando espaço. Estar inteiro em poucos lugares exige a coragem de estar ausente em muitos outros.

Penso no sommelier que conhece o ofício. Não é o que mais fala sobre o vinho, é o que observa a mesa. Percebe quem não tocou na taça, quem bebe por educação, quando a conversa esfriou. Não se exibe, não disputa atenção, mas nada lhe escapa. Uma atenção que serve, não uma atenção que se impõe.

Se a eficiência virou commodity, a presença virou diferencial. O cliente percebe quando foi atendido por alguém que estava ali. O colaborador percebe quando foi escutado, não apenas ouvido. Estar de fato é uma das poucas coisas que ainda não se terceirizam. Mas exige renúncia: dizer não a parte da agenda, aceitar parecer menos produtivo, ficar à mesa quando todos já passaram para a próxima.

Se as pessoas da sua equipe fossem vinhos, quantas delas você conhece apenas pela primeira taça?

**O que só se revela a quem fica**

Enquanto a última gota escorre pela taça, percebo que a garrafa do fim do jantar não é a mesma que abrimos no começo. Nós também não somos. Algo aconteceu na lentidão da conversa, no silêncio entre os goles, na disposição de continuar sentado.

Aprendi isso num banco ao lado de uma balança de caminhões, num dia em que a chuva me impediu de ir embora. Às vezes me pergunto quantas coisas eu teria descoberto antes se não precisasse de uma estrada fechada para ficar.

O que ainda está fechado na sua mesa, esperando apenas que alguém fique tempo suficiente para vê-lo se abrir?

*Alexandre de Salles*

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